Tenho um pássaro azul de penas rebeldes, de voz afinada, da
cor do céu da manhã mais límpida; tenho-o e tenho orgulho, pois ele me tem e
somos felizes. Tenho um pássaro negro de penas brilhantes, de asas quebradas da
cor da noite mais profunda; tenho-o como tenho a mim mesma, fenecendo-se no
brilho de um dueto bem bobo. Tenho um pássaro azul da cor das marés, e um
pássaro negro de tons abissais. Tenho a luz e o escuro e todo o mais; tenho as
ondas e o céu e o amor, e não preciso de nada mais; nada além do teu calor.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Tempo
Há quem diga que o futuro não existe. A cada segundo de
presente, produzimos simultaneamente passado e futuro, desprezando a golfada de
ar que já respiramos, expirando-a como havia de ser mais à frente, e deixando-a
para trás novamente, até irmos em busca de outra e outra, numa repetição
entediante que é, afinal, a própria vida. Ao pensar no conteúdo de meus
pulmões, subitamente eu quase o perco; o tempo não existe até que eu o encare.
E ter de lidar com suas investidas, seu olhar invisível que não pode, num
relance, ser ignorado, faz com que meu peito pareça sufocado e meu pulso
acelere sem motivos palpáveis. Prestes a fechar o primeiro ano de minha segunda
década de vida, eu olho demais para algo que costuma ser vislumbrado, com
alguma resignação mórbida, por aqueles que já contam mais do dobro de minha
idade. E percebo que sempre estive enleada aos amores desta força imaterial,
contemplando demais os movimentos do relógio e jamais aproveitando-os por
completo; que deixei que muito de meu alento fosse perdido numa daquelas pausas
silentes e profundamente perturbadoras nas quais eu olhei para a frente e o vi,
movendo-se sem fim; que, encarando-o, não reparei quando perdi ele de vista; e
que agora, por mais que eu ainda o veja, há muito dele que perdi.
Acostumada a gastar horas observando sua magnitude, eu,
pela primeira vez, foquei-me em um de seus membros mais difusos. A massa amorfa
do futuro caiu em minhas mãos e eu a moldei, numa simplicidade surpreendente,
em cenas e fatos e planos tão realistas que, por um momento, pareciam pertencer
ao presente. Presa num misto de fascinação e temor, eu mexo em seus detalhes
como uma criança a explorar a nova casa de bonecas. Mas meus dedos se sujam de
pó, e é muito fácil fazer uma cena desmoronar, e toda a minha fundação
imaginária se esvai, dissolvendo-se novamente na massa etérea que era e é.
Sabendo-o frágil, o instável futuro que se ergue e despenca, eu o reconstruo,
permanecendo imóvel, com a mais dolorosa consciência de que um movimento meu
alterará tudo. E assim vejo-me condenada à mera contemplação do que não vai
ocorrer, subjugada pelo poder do imprevisível, paralisada e com medo e frio. A
massa amorfa com que pensei tecer projeções não passa de ilusão. O futuro é um
breu absoluto onde meus olhos não podem enxergar.
E
o tempo não existe até que eu o encare.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Tridimensional
Papel.
Débil e imóvel papel. Todos são apenas papel. Dissolvendo-se no ar, queimando e
rompendo-se conforme o conteúdo lhes toca, pisa, amassa. Não há nada além de
papel. Nada além dos traços planos que desenham rostos bidimensionais, corpos
bidimensionais, seres bidimensionais. Nada além da folha esticada sobre a
parede, nada além da proporção perfeita e dos floreios artísticos, nada além de
rascunhos e ilustrações ilusórias, expressões simuladas, faces de mentira. Não
há nada tão leve quanto o papel, e nisto há algo pesado: basta um risco profundo
para que ele se rasgue, e aqui só há retalhos. Para mim só há retalhos.
Toco
a superfície com meus dedos tridimensionais, admirando sua beleza. Aqui, do
lado de fora, minha forma pesada e meus ossos trêmulos são apenas solitários,
estranhos, exclusos. Gostaria de ser um desenho, e de, como todos os outros,
sorrir um sorriso simétrico e plano. Gostaria de tornar-me estática, incapaz de
evoluir, simplória e rasa como o rascunho de um iniciante. Gostaria de ser tudo
o que não sou e não posso ser, presa do lado de fora, envolta por esta carne
dolorida e inchada, móvel e verdadeira.
Só
há a superfície a preencher, e que felicidade! Se estivesse oca não poderia viver,
e ainda assim não posso, cheia de coisas pulsantes, vivas e mortas, cheia de
dores latentes e dormências instáveis, tridimensionalidade e trevas, abismos
profundos e segredos que nem eu mesma sei. Presa ao conteúdo, sonho com as mil
possibilidades de uma folha em branco; mas meus dedos se cortam ao mais
vacilante movimento, e meu corpo é pesado demais e apenas desmancha, rompe,
dissolve-a, deixando-me só com os retalhos e o lado de fora.
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Após o vazio
Um
dia, ela cansou do nada.
Cansou
das quatro paredes pálidas. Cansou do incômodo silêncio do quarto. Cansou do
contato gélido da superfície inexoravelmente reta em que encostava as costas
curvadas. Cansou do banco de gesso que colava-se à parede numa quase camuflagem
branca. Cansou do vazio.
A
porta não abria. Ela tinha certeza que não era um problema ordinário; dessa vez
não precisaria encontrar a chave. Alguma coisa maior do que ela, maior do que o
quarto, maior do que todo aquele lugar emperrara a fechadura. Não era sua
culpa. Havia alguma maneira de sair dali, mas ainda não descobrira. Até que
cansou disso também. E o cansaço a fez erguer-se, esticar a coluna curvada e
esfregar as longas unhas sobre a parede. Ao contrário do que imaginava, suas
garras afiadas não eram tão frágeis quanto pareciam. Arrancou a tinta, depois a
massa, e então sobrara apenas uma fina camada de um não-sei-o-quê translúcido
num ínfimo buraco. Ela encostou a face de porcelana sobre a parede, ainda maior
do que ela, ainda pálida e gélida, mas não mais inteira. Uma mancha luminosa
movia-se lá fora, aquecendo-a com raios de sol que ela não via há tempos. Não
conseguia divisar uma forma distinta; ainda havia aquela couraça diáfana a
escondendo do exterior. Pensou em rasga-la com a unha rachada, rompendo-a na
primeira pressão do dedo, convidando o vento e o orvalho, o aroma e o que mais
de sensorial ela pudesse captar por aquela mísera rachadura na parede,
revigorando-se antes de continuar a quebra-la. Hesitou. O calor que sentia
poderia vir de um campo ensolarado ou de uma labareda. O lado de fora poderia
ser seu fim ou o seu começo. Mas estava cheio. Cheio de algo bom ou ruim. E
ali, entre as quatro barras de concreto barato, só havia o mais completo vazio.
Posicionou
as garras. Nem mesmo a própria roupa que usava tinha cor, e gostaria tanto de
sentir os olhos arderem com o contraste. Não havia nada ali dentro. Mas ela não estava vazia. Melhor que
sentisse dor a ficar dormente.
Então
sentiu algo. E nenhum pedaço da parede fora rompido, e no entanto ela tinha
certeza que o vento batera sobre seus ombros. Virou-se, um misto de choque e
incompreensão fazendo-a calcular mentalmente as probabilidades de vento daquela
parte do cubo, da porta sempre fechada. E nada fez sentido quando ela o viu.
Ela
o vira muitas vezes trancada naquele quarto. Talvez mais do que quando gastara
o tempo na antiga gaiola, recebendo visitas suas e ignorando a chave quando
mais quisera libertar-se. Acabara voando sozinha para longe, mas chegara apenas
ali. Não via ninguém de fato, ninguém real,
físico e palpável, há muito tempo. Mas definitivamente o vira. Uma assombração
persistente que fazia as paredes rangerem durante a madrugada, aparecendo vez
ou outra e perturbando o seu sono, sua paz, sua imobilidade silenciosa. Nunca
fora o tipo de fantasma atrevido que batia portas ou tocava suas costas no
escuro. Até porque só havia uma porta, uma porta devidamente trancada no
quarto. Mas ele a escancarara, e o pedaço de madeira branca parecia um mero
resto vagabundo consumido por cupins, caído no canto do cubículo como uma
vítima corrompida.
Ele não disse
nada. Ela não soube se deveria se sentir assustada ou feliz. Ele estava
diferente. Agora, ele era tão turvo quanto o que havia lá fora. O calor que
sempre viera dele poderia queimá-la ou aquecê-la. Encostou-se sobre a parede,
esperando que algo acontecesse, que algo começasse a fazer sentido. Ele apenas
a encarava. O silêncio do qual ela cansara renovou-se em algo totalmente
diferente, mais escandaloso do que milhares de buzinas, mais estrondoso do que
uma tempestade de raios. Seu pássaro azul não cantava mais, mas ela o queria para
si sob a mais pesada promessa de silêncio. Deslizou, prostrando-se no chão
enquanto permanecia o fitando, esperando, esperando, por tanto e tanto tempo.
Não precisaria mais quebrar a parede. Agora a porta que tanto tentara arrombar
estava destruída, e no entanto nada daquilo parecia real, e logo acordaria
igualmente presa. Mas estava presa agora também; presa nos olhos dele, presa na
espera muda que a afastara do sol. E aquilo parecia doer mais do que o contato
áspero das grades enferrujadas da antiga gaiola.
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Carta para a boneca da floresta
As teias de aranha na janela não me assustam mais. O tempo se encarregou de deixa-las ali, frágeis e quebradiças, persistentes e invisíveis, discretas em sua própria magia que leva a todos os cantos. O tempo se encarregou de deixar meus ouvidos doloridos descansarem, e minhas tenras feridas são hoje apenas marcas sobre a pele desbotada, desenhos eternos enfeitando os braços que um dia se jogaram ao enlace do que era mais terno e mais ácido. O tempo me envolveu em suas bandagens pálidas, paralisando-me em meu curso acidentado, lavando meus pés ensanguentados e dissolvendo a dor em minhas lágrimas, e quantas, quantas lágrimas. O tempo afastou as ervas daninhas de meu palácio, empurrou-me para sua torre mais alta, convocou o silêncio e as aranhas e o nada para que eu tivesse companhia.
Mas
hoje a canção voltou a tocar. E diante do lúgubre som do piano eu lembrei da
sua imagem.
Pensei
que dividíamos a mesma coleção de bonecas quebradas, o mesmo palácio de ternas
assombrações. Mas as aranhas são as únicas aqui, caminhando sobre os pedaços de
louça no chão, examinando os fragmentos minúsculos que arranharam meus pés,
subindo e descendo e voltando, lépidas e constantes como são. Pensei que minha
boneca favorita fosse a testemunha mais compreensiva de meus próprios pecados,
que os cabelos que eu penteara com tanto empenho não fossem me abandonar em
minha gaiola, jogando-se na tal floresta com a qual eu jamais havia sonhado.
Comparava nossas palavras e desenhos, nossos turvos rascunhos de sonhos
estranhos demais, iguais demais, nossos demais. E enxergava nos seus olhos
vítreos de brinquedo novo o que eu mesma já fora um dia, e deixava que minhas
asas negras a envolvessem, protegendo-a do que pudesse arranhar sua porcelana
intacta.
Mas
o tempo a levou também. E eu jamais soube o porquê. Minhas correntes pesadas
demais ainda não haviam sido quebradas, e meu coração ainda sofria, extraído um
pedaço enorme dele, o maior dos amores e dos pecados. E logo então minha boneca
quebrara-se sobre o chão, arrastando-se para os espinhos e trevas da floresta,
deixando-me só e sem a canção.
E
eu jamais soube o porquê.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Ao mundo: sobre escrever
São
quatro horas da manhã. Falta tão pouco para que eu tenha de acordar que meu
corpo dói só ao pensamento. Já li o suficiente de um livro brilhante que me
obriga, arrogante que é, a saber francês, e preguiçosa do jeito que sou, imóvel
em meu canto reflexivo, eu o abandono sobre a cama que sustenta minha falta de
vontade absoluta; não tenho o ímpeto nem sequer de digitar as tais palavras no
tradutor automático, e escovar os dentes parece a missão mais dolorosa já
imposta a um ser humano. Nem sei o que estou fazendo—ou sei, e isso é mesmo
terrível. Escrevendo sobre nada, despejando as palavras sobre a tela branca e
reluzente do monitor sem qualquer intenção, qualquer estímulo que não seja o de
simplesmente escrever, deixar que a voz inaudível dentro de minha mente
finalmente encontre algo que suporte sua tagarelice. O tal livro, especialmente
editado para pessoas cultas, imagino—qualquer outro público gostaria, e eu
então comprovo que não sou culta, de uma pequena nota de rodapé traduzindo os
insistentes dizeres franceses—me inspira de uma maneira que apenas os grandes
clássicos conseguem, despertando a estridente, sedutora moça escritora que
habita o interior de meu crânio, e eu tenho de atender aos pedidos mimados
dessa raríssima visita. Quando a escuto, é como se eu entendesse, tristemente,
que toda a minha atividade literária não passa de uma sombra dela, uma imitação
natural que jamais consegue se igualar ao original, uma coisa distorcida e
translúcida que só consegue adquirir uns contornos nítidos sob o sol mais
generoso. Sou uma pseudoescritora fúnebre; uma lunática fracassada que tenta ressuscitar
o espírito daquela amada que nunca vem, uma bruxa que, ao contemplar a beleza
de seu ídolo, traz à vida somente uma versão piorada—e muito mais trabalhosa—dele.
Tenho esse orgulho, ao menos, ou talvez não. Iria me enganar dizendo que me
mantenho firme ao meu estilo sombrio, quase mórbido, também como imitadora de
mim mesma. Mas é ela que escreve agora, a Maria esporádica que aparece nas
madrugadas para roubar o sono que empurra as pálpebras sonolentas da Maria
rotineira para baixo.
Fecho
uma janela deste terrível mirante virtual, e encontro-me com os olhos dele,
castanhos, puxados, penetrantes e impenetráveis. A sua beleza, sua calidez
imaginária tão pobremente descrita em minhas tentativas de livro, cobra-me e
atiça-me; ele é o retrato do que tento desenhar porcamente em tantas noites mal
dormidas, convidando-me a tentar—e fracassar—outra vez, pelo bem de sua própria
existência. Eu quero escrever, quero tanto, mas tanto, que quase nada escrevo. Os sonhos dela, a Maria escritora
que mais parece uma assombração, assustando-me nos momentos mais indesejados e
pintando o espaço sob meus olhos de matizes cada vez mais fortes, são grandes
demais para que a outra—ai de mim, eu mesma—consiga sonhá-los. Em sua
luminescência de entidade, a Maria escritora não tolera ofensas; e o que os
dedos pesados de uma imitadora morosa poderiam oferecer, se não a ofensa?
Escrever é doloroso. Escrever não é democrático. Parem logo de mentir, de dizer
que escrever é para todos. Nem mesmo esta imitadora acreditaria nisso. Um
escritor—pobre infeliz—é uma versão obscura de Deus. Se diverte, sofre, se
empenha em criar mundos e imagens e criaturas que, dotados de vida própria,
simbolismo e sentido, costumam prosperar mais que ele mesmo. O prazer de um
livro pronto, por mais que eu não o tenha conseguido sentir até hoje, não é nem
de longe um dos prazeres mais absolutos da vida. É, pelo contrário, doloroso.
Um escritor, um desses grandes, melhores escritores, um dia se apaixonou tanto
por um livro que decidiu dedicar toda a sua vida a reencontrar um espectro no
mínimo distante de seu amor, e qualquer volume barato a sair de suas mãos
simbolizará apenas um fracasso.
E
então eu saboreio o fel que minha própria relutância produz. O garoto de olhos
castanhos não consegue me convencer. Eu o amo, imperfeita, pobre criatura que é
sob meus dedos. Mas prefiro deixar que cuide de sua vida congelada enquanto eu
supero minha própria imperfeição. Meus próprios anseios frustrados. Minha
auto-decepção pela vergonhosa, estrondosa e inexistente vontade de terminar a
estória—eu diria história, mas a gramática não julga meus contos tão reais
quanto eu mesma—que eu comecei, o livro que eu jurei publicar, o doloroso e
cansativo aprendizado a que me entreguei desde que a oportunidade surgiu. Mãe,
mundo e professores, eu não escolheria ser escritora se pudesse. Algumas linhas
acima, admiti que não acredito que escrever seja para todos. Mas esqueci de
dizer que essas pobres criaturas atormentadas que coabitam este barco
escorregadio no qual acordei após a tempestade, são todas imitadoras, como eu;
e as vozes em nossas cabeças, com suas palavras distintas e ares sedutores, seus
sentidos de vida e causas profundas, são altas demais para que as ignoremos.
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