E então eu vejo sua imagem, perfeitamente nítida como poucos rostos guardados no fundo da minha alma. Talvez ela seja a mais nítida de todas; a mais perfeita, plana, posicionada de forma a fazer com que a luz realce os contornos do rosto que sorri maliciosamente para mim. Não só para mim. A sua imagem olha para os lados mais diversos, encara os horizontes infindáveis de todos os destinos possíveis. A sua imagem perde-se no céu, perscruta a terra, analisa os mares. Ela está virada em várias direções, não só na minha. Por um momento, eu sinto a sua falta. Seus olhos viajantes jamais encontrarão os meus por muito tempo; eles virão, pousarão no porto seguro que lhes ofereço, mesmo com minhas ondas inconstantes e estações tempestuosas, e deitarão ali enquanto o prazer lhe for conveniente, aquele tipo de prazer que só sua amante poderia lhe proporcionar. Eles não discutirão temas vastos, não lerão meus pensamentos mais profundos, não irão se deter por muito tempo. O mundo lhe chama, este mundo para o qual você, na imagem, olha incessantemente. O mundo lhe chama e eu sou só uma parte dele.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Fragmentos de Um Amor Esquecido II
A alvorada teve o grande benefício de tornar o caminho de volta para casa visível. Algumas pedras escaparam à minha percepção, no entanto, o que provocou alguns cortes a mais em minha pele já descorada. Eu corria, tropeçava, levantava para correr com mais afinco. Fugia de um defunto desperto; fugia de um corpo adormecido—para sempre. Eu não podia prever que os poucos vermes que haviam me tocado pudessem levar uma parte para eles, nem imaginava que servira de alimento enquanto deitada naquela cova. Só sentia um sono profundo; uma dormência mortificante que me compelia a descansar como viva.
Então, o dia do despertar chegou. Não posso enfeitá-lo com traços romanescos, afirmando que tal manhã nasceu distinta, pois seria mentira. Ela foi surgindo gradualmente, de pouco em pouco, cada vez mais pungente e incontestável. Foi esfriando a temperatura em brisas leves que se transformaram em tempestades de verão, molhando-me delicadamente em cada gota...Ela foi gentil, silenciosa e suave, como se não quisesse ser percebida—como se possuísse uma benevolência que a impedisse de me atacar, que não pretendesse me fazer sofrer. Não mais. Não havia mais o que sofrer. Não havia como.
Mas logo eu a avistei, quieta e reservada em seu lugar escuro, intacta e pálida como uma morta. A manhã do despertar. A manhã do vazio. A manhã mais insípida e inexpressiva que eu já vira, tão límpida, tão vagarosa, tão...nada. Ela era nada, e que nada—o nada que me sugava sem intenção, que nem me assustava nem me alegrava em sua invisibilidade, que apenas existia em meu peito, apenas mostrava-se a mim, translúcido e impalpável. Um espectro que caminhava na minha direção, que cerrava meus olhos e avivava meu sono, minha conformidade inédita. Ela era estranha, como uma disparidade de sonho: tinha poderes inconscientes, inexplicáveis e imperceptíveis de me calar, e eu os sentia quando suas mãos tépidas cobriam meus lábios, trancando-os. Eu observava quando poderia ser observada; eu falava quando não podia ser ouvida; eu ouvia quando nada havia para escutar. Eu esquecia, aceitava, presa em abnegação impensada. Conformismo cansado. Contestação abandonada, ou ao menos adiada.
Eu não lia, e se lia tinha dificuldades para absorver mais pesar, ou finalidades puramente alucinógenas. Alucinógenas, não ébrias; não lotadas de êxtase, o êxtase divino do prazer, da dedicação admiradora. Vazias.
Eu não amava nada.
E eu só tinha o nada.
No momento em que percebi isso, algo sussurrou em meu ouvido—não posso dizer se era a manhã, a dama-nada, pois jamais ouvira sua voz—e me contou o que eu não havia reparado: quando deixara o ataúde de meu ex-amado, então um defunto em minhas vistas, um ser descarnado e sem alma que apenas queria se alimentar de minha vida restante, eu deixara também um pedaço de mim. Um pedaço grande e importante de mim, que morrera sem que eu enxergasse, tornando aquela a morada de dois cadáveres. Não fora apenas a memória dele que eu assassinara para reviver, mas também uma parte de mim. Eu matara a mim mesma. Ou ao menos parte de mim.
E então só sobrara ela, a apática dama-nada, sustentando a memória inconsciente de algo que já não fazia mais parte de mim. Eu enfim a percebera, e ela apenas me avisara a missa que eu esquecera de rezar—o engano que eu cometera ao escolher dar minha vida a ele. Eu acabara realmente o fazendo, e não tinha sentido chorar. Fora apenas culpa minha.
Mas a dama-nada bem viu, enquanto me envolvia com seus braços etéreos, que não havia sentido em ser humana. Ela mesma era. Ela não chorava, não por seus olhos—mas ela chorou nos meus, tentando corar e transformar-se em algo através de meu pranto. Bem, ela teve sucesso nisso. Tornou-se outra coisa. Não necessariamente algo bom, mas ela não era mais nada.
Sua face cobriu-se de sombras, suas roupas já não provocavam indiferença—elas doíam, em cada um de uma forma. Ela me abraçou com mais ardor, chorando mais. E suas lágrimas despencavam de meus olhos. A voz grossa, angelical e assustadora ao mesmo tempo, sussurrou o que eu já percebera: ela era a culpa.
sábado, 25 de dezembro de 2010
Aos Sentimentos Mortos
É lógico que eu sabia que pensar positivamente sobre isso não passava de um engano. E eu não costumo me enganar assim.
Mas é mais do que incontestável que a verdade é, sim, a que eu enxergo com meus olhos impiedosos; a verdade que dói, que causa maus sentimentos e que, mais que tudo, permanece. A verdade que outros olhos amados não vêem; a verdade que não é secretamente doce, mas notavelmente amarga. Não usaria de eufemismos ou delicadezas para explorar tal realidade. Não usaria de falsas certezas ou consciências benignas para restaurar a afeição que já morre. Sei muito bem reconhecer a efemeridade das coisas e a imutabilidade da morte. E sei muito bem diferir um sentimento moribundo de um cadáver inerte, preso em ataúde selado a ferro e fogo.
Portanto, caro amado, não me digas que tu sabes de verdade o que sentem por mim. Não me digas que tu sentes que há verdade alguma nisso. São corpos já há muito enterrados, e para suas chagas não há esperança. Deixe que eu cuide de meu cemitério de sentimentos esvaídos, de minha mortalha de flores murchas.
E uma coisa esperem de mim, meus finados: não me verão cabisbaixa a rastejar por teus passos; não me verão semi-morta a pedir por teus beijos; não me verão deplorável a suplicar por teus encantos. Aquele que a mim diz ‘adeus’ de partida está. E a este eu deixo seu futuro, e o meu a mim.
domingo, 12 de dezembro de 2010
Perdão
Se apenas em ti encontro a felicidade, como poderia deixar de perdoar-te? Não seria tolo desperdiçar uma vida ao teu lado apenas pelas feridas que tu me desferiste, como se a dormência do tempo fosse superior àquelas que talvez sofrerei novamente ao perdoar-te? Não estaria então ganhando o prazer que tanto almejo, aquele que nasce a teu lado, assim como o divino direito mais irreal de apagar os borrões de nossas histórias? Não estaria poupando-te da culpa, concedendo-te alívio? Não me regozijaria apenas, mas também perpetuaria tal alegria a outrem, e principalmente, àquele que mais me importa?Não, não é supremo o meu perdão;ele não é de todo altruísta, pelo contrário, há unicamente por mim. Porque somente saciarei meu espírito se ele encontrar-se no teu; apenas esquecerei teus erros por necessitar desta cegueira; apenas voltarei a teu lado por amor à minha existência; apenas darei tal clemência por não resistir à tua falta.
Mas apenas se me cativas, e cativas além de minha própria pessoa. Pois a ela, a maior vítima de tuas chacinas, eu devo toda a existência anterior a ti; e cuidas para que eu não sinta novamente a alegria daqueles tempos, para que eu não vislumbre os passos perfeitos de outrora.
Talvez,se isto acontece, eu esqueço a tua falta,a tua dor, e a guardo em algum lugar obscuro demais para ser encontrada. Talvez, se isto acontece, eu caio de amores por outro alguém. Alguém que estará imutavelmente por perto, não importa o quanto perdida ou machucada, que sempre será forte mesmo após caminhar pelo vale das sombras mais negras, e ao mesmo tempo leve, sorridente e bela. Esta pessoa eu posso amar mais do que a ti, e aí estaria tua ruína: esta pessoa sou eu”.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Que estranho é
Que estranho é crescer e se deparar com um mundo desenhado em contraste constante—enxergar, de um lado, profusões de borboletas em escalas coloridas, vários tons se misturando, uma música celebrando seu vôo como o nadar suave dos sonhos e esperanças mais ternos da juventude; do outro, as trevas absolutas, o medo, a desilusão, a dor, a penúria. Que estranho é ver as pessoas que se mais ama sucumbindo à decadência de garrafas entornadas e ervas enroladas em papéis finos, grossos, em qualquer que seja o suporte ideal ou precário, conquanto urgente, para a satisfação ébria de seus vícios. Que estranho é saborear a incapacidade de salvá-los; que estranho é sentir-se impotente.
Que absurdo e doloroso é contemplar o desnecessário e insalubre como regra, e ver tal regra aplicada às constantes da própria vida. Que horrível é ver as criaturas mais doces do mundo caindo na espera pela morte, pela morte deliberada e gradual. Que triste é sentir que nada será jamais como antes, e que o antes refulgia de beleza. Cruzar as portas do umbral e senti-lo a entrar por cada um de seus poros—o pagamento, a reparação. O pagamento de que? Pelo que eu teria de me reparar? Talvez pelas minhas próprias expectativas—pelas minhas ilusões teatrais, etéreas, brilhantes e coloridas, girando como um caleidoscópio embriagante em minha imaginação ainda pueril.
Ou talvez eu pudesse considerar tais enganos, tais ilusões pungentes e quase indissolúveis como simples esperanças. Talvez, como qualquer jovem machucada demais para confiar e machucada “de menos” para deixar de esperar, eu apenas focasse meus sonhos, minha espera e minhas previsões num mundo perfeito e tranqüilo. E que mal há na esperança, se sua ausência geraria apenas a morte e a inexistência de tudo? Que mal há no desejo benigno de que tudo fique bem, de que todos fiquem bem, de que o “felizes para sempre” saia da esfera fantasiosa da literatura, que tanto nos ensina e tanto nos conflita? Cada sopro de ar neste mundo é esperança—e, caso tal não existisse, perderíamos a vontade de viver e explodiríamos a bomba nuclear de uma vez.
Então, que estranho é ver-me julgada e condenada por acreditar no ser humano que repudia a própria espécie por desiludir-se demais com ela. Que estranho é ver-me repreendida por tentar arrancar meus amigos das garras da morte; que estranho é ver-me considerada imatura por preocupar-me com os “meus” —estimulada e instruída, ao contrário, a deixá-los à míngua de suas próprias consciências consternadas e fabricadas com a suprema alegação de que “aquilo não é problema meu”. As mesmas bocas que repetem que amigos são a família que se encontra, as mesmas pessoas de veementes intuitos amigáveis e convicções altruístas, mas que, sob o pretexto da liberdade humana, pouco dedicam à consideração real a um ser humano. Que estranho. E, o mais estranho nisso tudo, caro amigo, é que, para eles, a estranha sou eu.
(E que estranho é pensar que isso foi um trabalho da faculdade)
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Fragmentos de Um Amor Esquecido
Minutos hesitavam, decidiam e retornavam em minha mente antes que eu tomasse a mais destrutiva das resoluções. Ignorando todo o amor que estivera guardado por mim, desdenhando conscientemente do passado em que eu me formara, mortificando definitivamente meu instinto de sobrevivência, assassinando todas as coisas que me faziam gostar de viver em meu próprio corpo, eu, num impulso, lancei-me para dentro daquela mortalha, morta, então, o suficiente para habitá-la. Esperava revivê-lo, e para isso trocaria minha vida pela dele; talvez alguma obscura pretensão heróica palpitasse que eu seria agraciada por isso—como um alvo anjo de perdão a salvar um homem das trevas mundanas. Talvez a mais dócil e suicida face romântica em mim julgasse aquele fim muito conveniente a uma futura novela biográfica—como uma pobre rainha enganada. O fato é que a cova estava funda e adentrada. Eu rastejei, entregando-me totalmente à minha forma de zumbi, silenciando minha respiração e cerrando meus olhos, na esperança de que logo ele me tocasse. E por muito esperei por nada. E pedi. Pedi, implorei, deplorável e calidamente apelativa. Até que ele tocou meus lábios, seus dedos de ossos desenhando o contorno de minha boca ainda viçosa. Mal pude perceber os vermes que já começavam a mastigar sua carne, e se os senti, foi apenas para afastá-los, exterminá-los das redondezas de meu amado...Mas se lá eles persistiam, eu deixava que me tocassem também, que amassem o mesmo corpo que eu queria que me amasse. Porque, de um jeito ou outro, ele seria meu novamente. Eu seria dele novamente.
Meus olhos concentravam-se em fecharem-se, mesmo quando eu ouvia seu riso ressoando por meus ouvidos, eriçando minha pele de prazer, um prazer que vinha em rajadas circulares por meu peito, impossibilitando que o ar entrasse em meus pulmões. Mas não importava. Eu não precisava de ar. Eu estava morta.
Então uma centelha inevitável fez-me abrir os olhos para um novo dia, e a manhã chegou nos queimando em nossa cova. Eu estava por demais dedicada a habituar-me à insensibilidade para não estranhar que aqueles raios me aquecessem, e vi tornar-me mortal contra minha vontade. Então perscrutei o ambiente estranho em que estava, já incomodada pelo súbito fedor pútrido que soprava. Tamanho foi o meu horror, quando fitei aquele que me acompanhava! Era um cadáver, um defunto fétido e horroroso de feições descarnadas, de estrutura monstruosa, cujo corpo, ou que restara dele, era agora palácio de milhares de vermes esfomeados, pequeninos e rechonchudos, rápidos e desajeitados em seus escassos movimentos desmembrados. Era sujo, inteira e irrefutavelmente sujo, e que asco causava! Meus sentidos humanos voltaram, ansiosos, muito bem-vindos, prontos para saírem dali. E eu escalei aquela parede de terra em passos firmes, absorta em uma fuga veloz.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
A Boneca na Gaiola
Jogada no bolor do sofá amarelado, ela tecia tranças em seu cabelo de seda. As mechas, diáfanas e alvas, iam ora e outra cair sobre seu rosto molhado, e refletiam em seus olhos intumescidos a leveza de cada queda. Ela, no entanto, não podia concordar. Quedas irrompiam com enormes pesares, e todo o ardor de uma perda vertiginosa pungia-lhe a alma naquele momento. Aquele morto momento de domingo, onde a névoa tingia o céu de maus agouros, vinha lhe trazer as mais dolorosas ponderações, reservando à sua consciência o duplo dever de carrasco e conselheiro. Isolada do mundo pelas grades polidas de sua gaiola, a mesma gaiola que ela tanto repudiara no passado, ela passava a imaginar, novamente, milhares de reinos distantes e inatingíveis, os quais qualquer carruagem ou trem jamais poderia pretender alcançar. Aquelas grades, por mais rígidas e frias, não representavam nenhuma barreira real para seus devaneios. E descobriu que podia voar para muito além daquele tranqüilo recinto, batendo suas asas de penas intocadas em plena liberdade. O ferro gélido e brilhante das barras apenas protegia a boneca que fora quebrada, até que ela se tornasse a fada viajante das eternidades, quando, então, nenhum mortal poderia tocar-lhe. Erguendo-se de seu desalento, perscrutou o aposento em que estava selada, trancada de um mundo inóspito e mesquinho, e focou o piano com seus olhos purpúreos. Dedilhando suas teclas bicolores em busca de sinfonias, solfejou o mais doce cântico das ninfas, vibrando em cada nota estendida, aplicando à canção os floreios de menina que sempre cultivara. Sentiu cada átomo de vida a reverberar por seus lábios, e procurou no dedo o anel que nunca desejara. Ali, sobre a pele pálida que enfeitiçava melodias serenas, nenhum ouro reluzente de jóias ou auréolas causava-lhe alergia, fustigava seus pensamentos, ou mitificava sua figura à altura de algo imaculado apenas como um ornamento poderia ser. E, sem que percebesse, seus cabelos etéreos valsaram no ar, borboleteando à celebração da fada que acabara de nascer; aquela que, debaixo da frágil porcelana, guardava um universo cheio de esperanças, sonhos e poderes...A única que podia conceber, no aço de sua vitalidade, a chave para abrir a gaiola.
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