sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Carta para a boneca da floresta




            As teias de aranha na janela não me assustam mais. O tempo se encarregou de deixa-las ali, frágeis e quebradiças, persistentes e invisíveis, discretas em sua própria magia que leva a todos os cantos. O tempo se encarregou de deixar meus ouvidos doloridos descansarem, e minhas tenras feridas são hoje apenas marcas sobre a pele desbotada, desenhos eternos enfeitando os braços que um dia se jogaram ao enlace do que era mais terno e mais ácido. O tempo me envolveu em suas bandagens pálidas, paralisando-me em meu curso acidentado, lavando meus pés ensanguentados e dissolvendo a dor em minhas lágrimas, e quantas, quantas lágrimas. O tempo afastou as ervas daninhas de meu palácio, empurrou-me para sua torre mais alta, convocou o silêncio e as aranhas e o nada para que eu tivesse companhia.
            Mas hoje a canção voltou a tocar. E diante do lúgubre som do piano eu lembrei da sua imagem.
            Pensei que dividíamos a mesma coleção de bonecas quebradas, o mesmo palácio de ternas assombrações. Mas as aranhas são as únicas aqui, caminhando sobre os pedaços de louça no chão, examinando os fragmentos minúsculos que arranharam meus pés, subindo e descendo e voltando, lépidas e constantes como são. Pensei que minha boneca favorita fosse a testemunha mais compreensiva de meus próprios pecados, que os cabelos que eu penteara com tanto empenho não fossem me abandonar em minha gaiola, jogando-se na tal floresta com a qual eu jamais havia sonhado. Comparava nossas palavras e desenhos, nossos turvos rascunhos de sonhos estranhos demais, iguais demais, nossos demais. E enxergava nos seus olhos vítreos de brinquedo novo o que eu mesma já fora um dia, e deixava que minhas asas negras a envolvessem, protegendo-a do que pudesse arranhar sua porcelana intacta.
            Mas o tempo a levou também. E eu jamais soube o porquê. Minhas correntes pesadas demais ainda não haviam sido quebradas, e meu coração ainda sofria, extraído um pedaço enorme dele, o maior dos amores e dos pecados. E logo então minha boneca quebrara-se sobre o chão, arrastando-se para os espinhos e trevas da floresta, deixando-me só e sem a canção.
            E eu jamais soube o porquê.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Ao mundo: sobre escrever




São quatro horas da manhã. Falta tão pouco para que eu tenha de acordar que meu corpo dói só ao pensamento. Já li o suficiente de um livro brilhante que me obriga, arrogante que é, a saber francês, e preguiçosa do jeito que sou, imóvel em meu canto reflexivo, eu o abandono sobre a cama que sustenta minha falta de vontade absoluta; não tenho o ímpeto nem sequer de digitar as tais palavras no tradutor automático, e escovar os dentes parece a missão mais dolorosa já imposta a um ser humano. Nem sei o que estou fazendo—ou sei, e isso é mesmo terrível. Escrevendo sobre nada, despejando as palavras sobre a tela branca e reluzente do monitor sem qualquer intenção, qualquer estímulo que não seja o de simplesmente escrever, deixar que a voz inaudível dentro de minha mente finalmente encontre algo que suporte sua tagarelice. O tal livro, especialmente editado para pessoas cultas, imagino—qualquer outro público gostaria, e eu então comprovo que não sou culta, de uma pequena nota de rodapé traduzindo os insistentes dizeres franceses—me inspira de uma maneira que apenas os grandes clássicos conseguem, despertando a estridente, sedutora moça escritora que habita o interior de meu crânio, e eu tenho de atender aos pedidos mimados dessa raríssima visita. Quando a escuto, é como se eu entendesse, tristemente, que toda a minha atividade literária não passa de uma sombra dela, uma imitação natural que jamais consegue se igualar ao original, uma coisa distorcida e translúcida que só consegue adquirir uns contornos nítidos sob o sol mais generoso. Sou uma pseudoescritora fúnebre; uma lunática fracassada que tenta ressuscitar o espírito daquela amada que nunca vem, uma bruxa que, ao contemplar a beleza de seu ídolo, traz à vida somente uma versão piorada—e muito mais trabalhosa—dele. Tenho esse orgulho, ao menos, ou talvez não. Iria me enganar dizendo que me mantenho firme ao meu estilo sombrio, quase mórbido, também como imitadora de mim mesma. Mas é ela que escreve agora, a Maria esporádica que aparece nas madrugadas para roubar o sono que empurra as pálpebras sonolentas da Maria rotineira para baixo.
Fecho uma janela deste terrível mirante virtual, e encontro-me com os olhos dele, castanhos, puxados, penetrantes e impenetráveis. A sua beleza, sua calidez imaginária tão pobremente descrita em minhas tentativas de livro, cobra-me e atiça-me; ele é o retrato do que tento desenhar porcamente em tantas noites mal dormidas, convidando-me a tentar—e fracassar—outra vez, pelo bem de sua própria existência. Eu quero escrever, quero tanto, mas tanto, que quase nada escrevo. Os sonhos dela, a Maria escritora que mais parece uma assombração, assustando-me nos momentos mais indesejados e pintando o espaço sob meus olhos de matizes cada vez mais fortes, são grandes demais para que a outra—ai de mim, eu mesma—consiga sonhá-los. Em sua luminescência de entidade, a Maria escritora não tolera ofensas; e o que os dedos pesados de uma imitadora morosa poderiam oferecer, se não a ofensa? Escrever é doloroso. Escrever não é democrático. Parem logo de mentir, de dizer que escrever é para todos. Nem mesmo esta imitadora acreditaria nisso. Um escritor—pobre infeliz—é uma versão obscura de Deus. Se diverte, sofre, se empenha em criar mundos e imagens e criaturas que, dotados de vida própria, simbolismo e sentido, costumam prosperar mais que ele mesmo. O prazer de um livro pronto, por mais que eu não o tenha conseguido sentir até hoje, não é nem de longe um dos prazeres mais absolutos da vida. É, pelo contrário, doloroso. Um escritor, um desses grandes, melhores escritores, um dia se apaixonou tanto por um livro que decidiu dedicar toda a sua vida a reencontrar um espectro no mínimo distante de seu amor, e qualquer volume barato a sair de suas mãos simbolizará apenas um fracasso.
E então eu saboreio o fel que minha própria relutância produz. O garoto de olhos castanhos não consegue me convencer. Eu o amo, imperfeita, pobre criatura que é sob meus dedos. Mas prefiro deixar que cuide de sua vida congelada enquanto eu supero minha própria imperfeição. Meus próprios anseios frustrados. Minha auto-decepção pela vergonhosa, estrondosa e inexistente vontade de terminar a estória—eu diria história, mas a gramática não julga meus contos tão reais quanto eu mesma—que eu comecei, o livro que eu jurei publicar, o doloroso e cansativo aprendizado a que me entreguei desde que a oportunidade surgiu. Mãe, mundo e professores, eu não escolheria ser escritora se pudesse. Algumas linhas acima, admiti que não acredito que escrever seja para todos. Mas esqueci de dizer que essas pobres criaturas atormentadas que coabitam este barco escorregadio no qual acordei após a tempestade, são todas imitadoras, como eu; e as vozes em nossas cabeças, com suas palavras distintas e ares sedutores, seus sentidos de vida e causas profundas, são altas demais para que as ignoremos.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A Segunda Morte

Morte. Eu já havia escrito tanto sobre ela. Era realmente curioso que eu jamais a houvesse sentido.
Há dois tipos de morte. Há o tipo figurado, metafórico, irreal, espiritual. Extremamente poético, esse tipo de morte sempre esteve em meus contos. Eu não precisava sentir a verdadeira para saber descrevê-la—essa morte etérea, simbólica, literariamente ideal numa dimensão imaginária. Eu só precisava apurar. Apurar meus sentidos, minha empatia e meus sentimentos: apenas isso era necessário, e ainda assim poucos o conseguiam. Não me sinto inclinada a escrever mais sobre isso. Está em todos os meus textos e imaginações, e não há nada de novo para explorar por enquanto. O primeiro tipo de morte sempre foi muito claro.
Mas há o segundo tipo. A morte orgânica, factual, legítima e atestada. A morte irreversível, silenciosa e vazia do mundo físico.
Eu já havia ouvido falar que me sentiria assim. Dormente. Estranhamente concentrada. Até mesmo produtiva. E muitos poderiam dizer que isso só está acontecendo porque quem, ou o que morreu, na visão deles, não era mesmo muito importante. Talvez realmente exista uma diferença, mas ela não é tão grande assim. De qualquer modo, ela está aqui—a morte física, factual e eterna—e eu jamais poderia imaginá-la tão quieta.
A minha primeira, a minha quase única impressão sobre o segundo tipo de morte é o silêncio. Faz muito sentido, contando com o fato de que eu aguardei no silêncio até que declarassem que o que estava ali, do meu lado, era a morte factual, enquanto todos que estavam presentes soubessem antes, e provavelmente com muito mais barulho. Mas não consigo separar uma coisa da outra. A morte é autossuficiente—ela chega e acaba, mas nunca termina. Diz-se que alguém “morreu” e não há mais qualquer coisa para replicar, nem providências a tomar. A morte é tão solitária que mal percebemos que ela precisa constantemente buscar companhia. E não suportamos que ela leve um de nós, e estamos tão pouco preparados para isso, que não temos qualquer tipo de reação adequada quando acontece. Eu estou teclando tranquilamente e um corpo não anda mais aqui, não mais me afaga com suas patas peludas, e nem nunca mais fará. A morte é tão estranha que parece enganar-me, fazendo com que eu não a odeie—apenas odeie o fato de que ele não vai mais voltar pra casa.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Pássaro Azul

             Terno pássaro azul, permaneces tão belo. Já não via tuas penas há tanto, e não posso dizer, contudo, que mal as recordava; nem uma nuance de teu brilho celeste desgastou-se em meus olhos, nem um formato de tuas plumas livres dissipou-se de meu horizonte, e nem uma nota de teus cantos etéreos distorceu-se ao meu redor. Tua voz ecoou como o vento que balançava, então, minha gaiola enferrujada, arrastou-se nas rajadas que zombavam de mim em liberdade, congelou-se no tempo que judiou de meu sustentáculo, embaralhou-se nas gotas da minha própria tempestade. Tua voz sussurrou meus pecados aos ares, embalou meus prantos insones, repousou ao meu lado vazio. Tua voz encontrou-se com a minha em segredo, conjugou verbos inertes, proferiu palavras sem letras. Tua voz desenhou-se sobre minhas penas negras, afundando-se nelas, e, gritando em claridade o quanto sua presença deformava minha escuridão, permaneceu aqui para sempre; tua voz consumiu-se em meu fôlego, aderindo-se a cada pedaço de meu interior; tua voz é a minha, tão minha quanto o que agora é história, e de histórias eu vivo.
            Terno pássaro azul, tu se lembras daquela chave? Tu sempre voaste tão alto, e assim a encontraste. Cintilante como teus olhos miúdos, da maneira que pássaros negros costumam gostar. Era linda e era tudo, e se encaixava também. Mas meus olhos perscrutaram o chão por tempo demais, e a gaiola se fechou; novamente, e além, até que tuas visitas cessassem e tuas viagens se tornassem teu lar. Se ao menos as minhas asas fossem as tuas, se elas não fossem as fúnebres estruturas de uma ave que nunca aprendeu a voar! Mas lembras que tu jamais tiveste grades, e talvez se veja a tocar as minhas, a dividir um dueto nas tardes mais felizes.
            Por todo este tempo, tua voz não cessou. Por todo este tempo, a canção mais bela jamais deixou de despertar as manhãs, espalhar-se pelo espaço, convidar o encanto. Pobre pássaro negro que sou! Acordar imaginando, todas as manhãs, que tu cantavas para mim! Eu te vejo num galho, agora, e entendo o que deixei do lado de fora. E falho ao observar o quanto as tuas penas celestes combinam, misturando-se às penas purpúreas dela, e o quanto ela mesma guarda tanto de ti em si mesma, como se tua voz houvesse, também, se tornado a dela. E entendo que tornei-me muda, e meus pios disformes, outrora alentados por tua voz, pouco puderam manter-se, presos numa garganta que não cantava para ninguém. Mesmo que minha gaiola tenha caído e suas grades tenham se partido com o impacto, e mesmo que minhas asas atrofiadas tenham desafiado o vento, voando ao seu lado, cabe a mim resistir, afinal, à terrível tormenta que me assola sem barreiras.
            Sinto o vento me empurrar, pássaro azul, e já percorri léguas e mares. E tua voz não cessou.